Marcos S. Buckeridge - Biólogo
Uma pizza de fotossíntese, por favor
Numa noite, uma pizzaria média transforma quase 300 quilos de madeira em CO2.
Enquanto aguardamos a preparação de uma suculenta pizza, se dermos uma olhada para o forno com a lenha em brasa, veremos uma das cenas mais antigas do uso de bioenergia. Uma pizzaria de porte médio em São Paulo começa a queimar lenha por volta das 17 horas e pode vender até 300 pizzas num bom dia. A madeira usada tem que ser o eucalipto (madeiras nativas são proibidas) e em média um quilo de madeira é torrado para cada pizza. Resultado: no fim da noite os consumidores de pizza transformaram quase 300 quilos de madeira em CO2.
Mas a contribuição da bioenergia para o jantar não é só essa. Para ir à pizzaria, os clientes usam seus carros e consomem petróleo e/ou etanol. Depois de ingerirem a massa com queijo e molho de tomate, os apreciadores de pizza irão extrair uma boa parcela da energia armazenada nos carboidratos e lipídeos. Depois de comer, voltam para casa de carro e gastam mais biocombustível para se transportar.
O que tudo isso tem em comum? Todos esses processos visam à liberação da energia presa na ligação entre moléculas de carbono, que vieram, sem exceção, da fotossíntese.

Numa noite, uma pizzaria média transforma quase 300 quilos de madeira em CO2.
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Queimar madeira talvez seja um dos processos mais antigos desenvolvidos pelo homem para retirar energia de macromoléculas. Ao queimar madeira, o que se está queimando é açúcar. Os ancestrais do homem provavelmente dominaram o fogo há muito tempo, talvez 1 ou 2 milhões de anos atrás. No entanto, foi a revolução do neolítico, há cerca de 10 mil anos, que iniciou um longo período de uso de biomassa para a obtenção de energia. Queimar madeira foi suficiente para produzir calor e luz até a revolução industrial na Inglaterra. Com a revolução, a demanda por madeira aumentou tanto que, no fim do século XVII, já havia escassez desse insumo na Europa, tal era o seu consumo para os processos industriais. A conseqüência disso foi a devastação das florestas européias e o início da devastação das florestas pan-americanas em razão da colonização das Américas.
Devido à escassez de madeira, foi então sugerido que se utilizasse a fumaça oriunda da queima do carvão mineral para formar um composto que foi chamado de coke (em português carvão coque). Em 1709, Abraham Darby desenvolveu um auto-forno mais eficiente para produzir ferro de alta qualidade usando coque ao invés de carvão. Esse é hoje considerado como um passo decisivo para o avanço da revolução industrial.
Uma das fontes mais incríveis de energia que a humanidade já encontrou foi o petróleo. A descoberta não é nova, pois se acredita que ele já era utilizado pelos persas e pelos chineses. Bem mais tarde, os EUA começaram a usá-lo intensamente a partir de 1859 e uma indústria complexa surgiu a partir do petróleo.
A teoria mais aceita sobre a origem do petróleo é a “biogênica”. Segundo essa teoria, restos de organismos mortos (fito e zooplâncton) presos entre o lodo no fundo do mar dariam origem ao petróleo nos oceanos enquanto em terra esse papel seria desempenhado principalmente pelos restos de plantas. Do petróleo também se produz o coque que é usado na indústria para a produção de ferro gusa, forma básica de liga ferro-carbono que dá origem ao aço, por exemplo. No caso do Brasil, um dos maiores produtores de gusa do mundo, o carbono para fazê-lo vem do carvão, ou seja, originalmente de madeira. Assim, o aço existente na lataria do automóvel que leva nossos clientes à pizzaria também tem uma relação com o carbono fixado na madeira através da fotossíntese.
No caso da pizza, para voltar ao prato principal do artigo, o amido da farinha de trigo usada em sua massa é originário do processo fotossintético, assim como os polissacarídeos que dão a consistência ao molho de tomate. Já o leite usado para produzir o queijo passa por um processo de baixíssima eficiência de armazenamento de carbono quando comparado a o que ocorre com os demais componentes da pizza. Basta pensar que para produzir leite uma vaca necessita de um enorme pasto com gramíneas crescendo, fazendo fotossíntese e produzindo amido.
Atualmente há uma intensa discussão sobre o uso da bioenergia para evitar a emissão de carbono e o efeito que a produção de biocombustívies poderia ter sobre a produção de alimentos. O problema é que para produzir comida é necessário gastar energia. Nesse contexto, será que se poderia esperar um desequilíbrio mundial na produção de alimentos devido à produção de biocombustívies? Dificilmente um estado de desequilibro intenso se sustentaria, pois não dá para ficar sem comida por muito tempo e se não tivermos a energia para obtê-la tampouco teremos comida. Os dois processos são tão atrelados entre si que não é possível separá-los.
Por que então tanta discussão atualmente sobre os biocombustívies e a comida? Será que produzir biocombustíveis de forma limpa e ambientalmente balanceada não seria o melhor caminho a seguir? Se fizermos isso, os biocombustívies com certeza não serão uma ameaça à humanidade, como acham alguns. No Brasil já temos leis e tecnologias para isso.
O que ocorre mesmo é que os europeus se preocupam com os pobres quando lhes convêm. Se estão tão preocupados assim com a falta de comida nos países pobres, por que os europeus não ajudam essa camada menos favorecida de habitantes da Terra a produzir mais alimentos? Mais do que isso: poderiam também comprar os biocombustíveis que são produzidos por esses países de forma ambientalmente sustentável e, assim, ajudá-los a melhorar em vários aspectos. E também poderiam baixar ou eliminar os subsídios à sua própria produção agrícola para que ela seja mais suficiente.
Sabemos que a participação dos biocombustíveis na matriz energética mundial é e será limitada. Não haverá área suficiente para produzir tanta biomassa e não podemos invadir biomas preservados sob risco de acelerarmos os efeitos das mudanças climáticas.
Ainda assim, é possível, sim, produzir bioetanol, lucrar e, ao mesmo tempo, preservar o meio ambiente e respeitar as pessoas. Não é necessário, ou pelo menos não deveria ser, que ensinem aos brasileiros como fazer isso. O Brasil do século XXI tem que ser capaz de adotar políticas públicas equilibradas, que sejam boas não só para nós, mas também para o resto do mundo.
Se soubessem que é necessário gastar tanta bionergia para fazer uma pizza, será que os clientes deixariam de comê-la? Duvido!
Marcos S. Buckeridge - Biólogo
Universidade de São Paulo
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