Fábio Cavazotti - Jornalista
Dona Árvore
No início deste mês de dezembro/2007 foi lançado, em livro, a coletânea de poesias e redações do 1º Concurso Literário da Zona Norte da cidade de Londrina - PR - evento que contou com apoio da Federação das Associações de Moradores (Famecol) e Universidade Estadual de Londrina (UEL). Todos os textos que constam da publicação são merecedores dos mais altos aplausos e atestam que a poesia, a cultura e o conhecimento já estão dentro das nossas crianças, faltando, por vezes, apoio de nós, adultos, para que se fortaleçam. Entretanto, um dos textos chama, sobremaneira, nossa atenção, pelo gravíssimo alerta que contém. Seu título é ''A árvore mais linda'' e foi escrito pela estudante Alexandra Martins Inglês, da 4ªsérie da Escola Municipal Atanázio Leonel, no Jardim São Jorge. Transcrevo-o na íntegra:

"Ele estava começando a me cortar e eu falei. Socorro, socorro! Mas não tinha escapatória para mim..." |
''Oi pessoal! O meu nome é Dona Árvore. Eu tenho amigas que são árvores também. A cada dia que passa os inimigos cortam minhas amigas e poluem o ar, a cachoeira e os rios. Qualquer dia eu também vou ser cortada e vou virar madeira...
Hoje, o cortador de árvores chegou perto de mim. Ele estava começando a me cortar e eu falei. Socorro, socorro! Mas não tinha escapatória para mim. Eu morri e todas as árvores ficaram chorando''.
Cara Alexandra, eu também morri um pouco ao ler seu texto. E ao mesmo tempo renasci. O que sua história me despertou assemelha-se à própria morte das árvores: um misto de sensação de perda e espírito de luta para reverter a situação. Mas, mais importante que meus próprios sentimentos, são os seus. Eles revelam que, tudo aquilo que alguns adultos dizem para nossas autoridades, ou seja, que o extermínio de árvores sadias (nativas ou exóticas, não importa, já que na grandeza das crianças são todas árvores) é injustificável à luz da natureza, transparece à nossa futura geração como um assassínio generalizado. E importa a nós perceber que o recado ambiental que estamos passando às crianças é o mais deturpado que poderia existir.
Ao pessoal da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Londrina - com todo o respeito: se o alerta, a crítica, a avaliação e o pedido de nós adultos, membros de Ongs, da imprensa, cidadãos comuns ou ambientalistas anônimos são sempre 'mal encarados', como posicionamento político, ou passionalidade, que o desabafo de Alexandra lhes sirva de alguma coisa.
Que reflitam na inocência das crianças suas próprias atitudes. Que tenham a grandeza de, como os verdadeiros pais, aprenderem com seus filhos. E que parem com essa barbaridade chamada erradicação de árvores, a não ser nos casos previstos em lei: podridão, risco à segurança ou impedimento à construção de bens públicos.
Se vocês cessarem com isso e passarem a plantar árvores, muito mais do que a quantidade irrisória de hoje em dia, talvez passem a plantar, além disso, boas sementes em nossas crianças. E, com certeza, receberão o agradecimento de todos nós, adultos e crianças, sem falar na gratidão da natureza que floresce no vale do Rubi, no Zerão, e em outras áreas verdes que hoje choram mutiladas.
Parabéns e obrigado, Alexandra, você, em sua infância, já dá lição em muito adulto!
Fábio Cavazotti é jornalista na FOLHA DE LONDRINA
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